A frase do grande escritor irlandês é exagerada e violenta, mas talvez descreva bem o sentimento de muitos em face dos abusos que ocorreram no sistema financeiro dos Estados Unidos e da Europa no passado recente. Como se sabe, o problema começou no mercado subprime de hipotecas aqui nos EUA, contaminou outros segmentos do sistema financeiro e atravessou o Atlântico Norte. A turbulência financeira e a contração dos fluxos de crédito, além de desencadear abrupta desacelaração (provavelmente recessão) na economia americana, atingiram o crescimento da Europa e de outras economias desenvolvidas. Os emergentes também estão sendo afetados, ainda que em menor medida - até agora. Os nossos bufunfeiros locais ainda não tinham tido tempo ou incentivo para participar intensamente das barbeiragens de suas contrapartes americanas e européias.
A crise não é global, mas a sua gravidade é inegável. Segundo o renomado financista George Soros, trata-se da pior crise financeira dos últimos sessenta anos.
Realmente, é impressionante o estrago que os desmandos do sistema financeiro podem produzir. Hoje não se pode mais duvidar: nos Estados Unidos e na Europa, a turma da bufunfa barbarizou.
O sistema financeiro dos Estados Unidos é o mais poderoso e sofisticado do mundo - mas é também
um dos mais irresponsáveis. A crise atual é a quarta dos últimos trinta anos. Todas essas crises financeiras tiveram forte impacto negativo no mundo real - a começar pela primeira delas, a crise internacional da dívida da década de 1980, que foi desastrosa para o Brasil e está viva na memória dos brasileiros que hoje têm quarenta anos ou mais.
Em todos esses episódios, partes importantes do sistema financeiro americano tiveram que ser salvas pela intervenção do governo e do banco central. Como observou Martin Wolf, em artigo publicado no "Financial Times", nenhum outro setor da economia tem talento comparável para privatizar ganhos e socializar perdas. O setor bancário, lembra ele, beneficia-se de gigantescos subsídios públicos, implícitos ou explícitos. Em períodos de pânico, as autoridades governamentais acabam forçadas a entrar em cena. A razão é conhecida: o sistema financeiro é praticamente o único setor que tem potencial para devastar economias inteiras. Na prática, nenhum governo pode deixar o sistema quebrar.
Os padrões de comportamento das instituições financeiras e de seus executivos ficam frequentemente muito abaixo da crítica. A sofisticação crescente das operações e dos instrumentos torna o setor cada vez menos transparente e mais difícil de regular e supervisionar. As agências de classificação de risco não conseguem (ou não querem) proporcionar uma avaliação adequada da qualidade dos títulos e das empresas. Não raro, parecem coniventes com os emissores dos papéis por ela avaliados.
A estrutura dos incentivos com que se defrontam os executivos financeiros é perversa do ponto de vista do interesse público. Se as manobras especulativas de alto risco dão certo, é a consagração total. O sistema de bônus permite aos bufunfeiros embolsar somas imensas. Quando as operações fracassam em grande estilo, o pior que lhes acontece é perder o emprego. Mesmo assim, presidentes de bancos e outros executivos importantes recebem pacotes milionários na saída. Voltam para a casa forrados.
Pensando bem, Bernard Shaw não exagerou.
*Publicado no Jornal O Globo, em 09/02/2008