Relatório sobre o IX Congresso de Economistas da América Latina
Realizado de 4 a 9 de fevereiro de 2007, em Havana.
Redação preliminar
1 - CARACTERÍSTICAS E RESULTADOS DA REUNIÃO
A reunião teve a presença de 1400 participantes oriundos de toda parte do mundo. Os trabalhos tomaram a forma de reuniões plenárias, realizadas à tarde, e reuniões setoriais ocorrendo simultaneamente, pela manhã, em diferentes auditórios. Essa formatação dificultava o encontro, com troca de idéias e informações, entre os participantes capazes de contribuições mais relevantes.
Essa troca foi igualmente dificultada pelo fato de que os depoimentos programados não deram lugar a "papers" expondo as teses apresentadas. Apesar desses documento terem sido solicitados pelos organizadores do evento, apenas cerca da metade dos expositores atenderam ao pedido. Mais grave é que os "papers" efetivamente preparados não se achavam à disposição dos interessados. Somente foi oferecido breve resumo dos mesmos. O documento preparado pelo CED (O Desenvolvimento da América Latina e a Barreira Ideológica) foi devidamente considerado tendo merecido um dos mais extensos resumos oferecidos.
Essas considerações não desmerecem os resultados políticos da reunião, cujo resultado principal foi o unânime reconhecimento do fracasso do neoliberalismo e da necessidade de ação conjunta dos países da América Latina e Caribe em prol do desenvolvimento da região. Foi igualmente importante o contacto direto e a troca de idéias e informações entre alguns dos participantes da reunião
A ECONOMIA CUBANA NO MOMENTO PRESENTE
A participação no seminário e a visita ao país permitiram, igualmente avaliação elementar da situação de Cuba, que registramos a seguir. Para o visitante desinformado a impressão é extremamente ruim. Mesmo na região central de Havana o visitante se defronta com edifícios mal conservados, transportes coletivos inadequados, criando a impressão geral de decadência em relação ao passado de maior prosperidade. A mesma situação se repete em cidade vizinha visitada. Os veículos que circulam pelas ruas revelam elevado grau de obsolescência. As estradas, mesmo na província de Havana, registram nível surpreendentemente baixo de tráfego.
Essa má impressão não exclui o fato de que o atendimento médico é de altíssimo nível (a mortalidade infantil registra no país níveis comparáveis aos do Primeiro Mundo). Informações obtidas com especialistas permitem aceitar que alguma coisa semelhante acontece com a educação secundária. O Governo cubano distribui, outrossim, para cada família, cesta básica pouco inferior à necessidade normal de alimentos. O objetivo da insuficiência é evitar o problema do desencorajamento do trabalho próprio dos beneficiados.
A melhor avaliação desse fatos, um pouco paradoxais, parece ser a seguinte. O sucesso de qualquer política de desenvolvimento depende da disponibilidade de mercado de dimensões e dinamismo adequados. No caso de Cuba, país de pequeno mercado interno, o mercado a ser explorado era o dos Estados Unidos. Este foi fechado ao país, menos em conseqüência de uma suposta incapacidade do socialismo, do que pelo bloqueio econômico imposto ao país pelos Estados Unidos. Cabe aqui observar que, no caso da União Soviética, o grande mercado interno viabilizou a implantação de setor industrial de alto nível, que não se refletiu integralmente no padrão de vida da população em conseqüência dos elevadíssimos gastos impostos pela corrida armamentista. A Venezuela pode se declarar, sem maiores riscos, socialista porque os Estados Unidos ( fortemente dependente das importações petrolíferas) se acham impossibilitados de repetir contra ela o bloqueio imposto a Cuba.
O FUTURO DA ECONOMIA CUBANA
A experiência recente autoriza a interpretação de que, tanto o neoliberalismo, patrocinado pelo Consenso de Washington, quanto o socialismo no modelo soviético, se revelaram pouco apropriados ao objetivo de levar seus aderentes ao pleno desenvolvimento. Donde se dever esperar que Cuba evoluísse para soluções de mercado. Possivelmente dentro do extremamente bem sucedido modelo chinês, em que o próprio partido comunista comandaria a abertura para soluções de mercado. A proximidade do país junto ao mercado americano autorizaria inclusive esperar entre outras coisas que, a exemplo do sucedido com a Irlanda em relação a União Européia, Cuba se tornaria exportadora para os Estados Unidos de serviços de alto nível no setor de informática.
Depoimentos obtidos junto a participantes no seminário permitem supor, que dentro do próprio Partido Comunista cubano existem defensores dessa linha de evolução. A situação se complicou com a tomada de posição do Presidente da Venezuela em favor do socialismo. Em função disso passou a ganhar corpo (o que se verificou claramente em diversos pronunciamentos dos participantes do seminário) a idéia de que a implantação do socialismo na América Latina e Caribe ganhou nova chance. O que fracassara na tentativa de Che Guevara poderia ser obtido através do poder de fogo representado pelos altos recursos gerados pela exportação venezuelana de petróleo. Ou seja, a nova era "bolivariana", propugnada por Chaves, seria socialista e não capitalista.
Uma das mais instigantes teses apresentadas no seminário foi a de que os Estados Unidos, com seus elevados déficits cambial e fiscal, agravados pelos baixíssimos níveis de poupança interna (inclusive negativa no ano passado) e pelo insucesso registrado no Iraque e Afeganistão, estariam condenados aquele país a inevitável colapso em futuro não muito distante. Esse colapso, com suas gravíssimas conseqüências em todo o mundo, criaria a oportunidade para o renascimento do socialismo. Nesse caso, ele daria o primeiro passo (diferentemente do suposto na ortodoxia marxista) nas economias subdesenvolvidas. Entre as quais as da América Latina e Caribe
Diante desse fatos torna-se difícil prever o que acontecerá em Cuba depois da era Fidel Castro.
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